foto

foto

ninfeias

O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes e mulheres da comunidade ouropretana. Os encontros do núcleo ocorrem no DEART e, neste semestre, são às terças-feiras, de 19 às 21h, e às quartas, de 10 às 13 h.
Atualmente o NINFEIAS é composto pelas performers pesquisadoras Thaiz Cantasini, Karla Ribeiro, Mara Reis, Mayra Pietrantonio, Carolina Reis e Lívia Maria. Também participam desta rede colaborativa: Paola Giovana, Olívia Coelho, Isabelle Balbi, Isabella Mayrink, Thaís Muniz e Carolina Pienegonda.

sexta-feira, 13 de março de 2015

AÇÃO POSTO DE SAÚDE - SANTA CRUZ

relato do movimento, meu ato de silêncio. a denúncia de vários tormentos.
foi terça feira. preciso expor, vomitar essa ação. meu silêncio implora! abra a boca e escreve sobre tudo. - você ainda está em silêncio? sim... e sinto ainda mais tudo. reviver o que passou, as imagens, tudo...

dia dez de março. começo escrever ás 15h09.

fiquei uma hora de frente a ele.
primeiro chego no bairro, me troco, amarro. os barbantes. amarraram me com seus arames. desci. caixinha de música na mão, a minha proteção. desci, comecei minha ação. dançar, dancei. "não há revolução sem dança." dancei, brinquei. e ele sentado no bar.
antes disso, colando frases contra opressão, o mesmo sujeito passou em nossa frente... - eu preciso olhar a pressão.

- você me olhou e eu te olhei. foi isso.

ainda sem falar. queria tanto gritar! mas preferi cantar. que loucura! que força foi essa?! de pagu, de guerreira, de índia. as forças da minha mãe, da minha avó. para mim, foram mais que uma hora de silêncio. foi um tormento.

- não chora, eu não te fiz nada. não chora.

uma hora que meu corpo cresceu, torturas. eu rezei. pedi a d(D)eus que aquele sujeito se afastasse de mim! o espaço do movimento. meu corpo coberto por amarras.

- ela me petrificou. ela me hipnotizou. eu não fiz nada.

quem diria que a caixinha na minha mão, fosse a minha proteção. quem diria... que aquela música que eu odiava, que fica repetindo e repetindo fosse naquele momento a minha única proteção. fosse a minha arma, a minha espada! ele vinha, se encostava. eu o machucava. agradecia a

- dani, sabe me informar se aqui na santa casa tem tratamento alcoologico? - na hora que eu escrevo o meu relato, vem o universo e retoma assuntos.

eu o machucava. agradecia a d(D)eus por minha caixinha não ter formato de coração. minha caixinha pontiaguda. meu trabalho, um lugar de denúncias. o cheiro da cachaça ainda está na minha memória. eu dizia na minha mente: - se afaste de mim! repreendo. eu ordeno que saia. mas, ele saia e vinha. ele brincava. me olhava e repetia o jogo. saia e vinha. eu precisei cuspir.

- É BRIGA!  ouvi alguém gritar.

com a energia ainda viva, meu corpo, minha cabeça. eu precisei de um cigarro. minha força, herança da minha família. eu não fui pega no laço. eu não deixei que ele me oprimisse.

memórias. eu começando a ação.
dançando com as amarras. das mulheres. comecei e vi que ele me olhava. saiu do bar e foi ver mais de perto a menina -eu- dançar.

- o que esse cara está querendo? pensei comigo... ele me olhou e eu, olhei também... mas, ele não parava de me olhar. chegou mais perto de mim. - santodeus, será que ele quer tocar a caixinha? então eu ofereci a caixinha. ele nada, só me olhava e se aproximava.

chegava mais perto, eu sem espaço. eu não conseguia mais dançar. então parei e o encarei. seu corpo se aproximava cada vez mais perto de mim. cara fechada, sobrancelha cerrada. - porque esse cara está aqui?
o sujeito não me dava espaço. começou a usar o dobro do seu tamanho para me encarar. começou a imitar meu olhar. eu não deixei. isso não vai me amedrontar. continuei. cara fechada. agora era só a caixinha que tocava. durante um tempo era só que eu ouvia. parada. exposição da massa. seu corpo. saia e vinha. me oprimia. eu parada. NÃO! ao meu lado eu não te quero. ENCARO O DE FRENTE. esse jogo continuou. até que ele chegou mais perto do meu rosto. voltou - me olhou de cima em baixo E AINDA POR CIMA MORDIA O LÁBIO! olhava meu peito. me olhava sem o menor respeito. olhos ameaçadores. chegava cada vez mais perto. eu o machucava com a minha caixinha.  chegou mais perto, quase encostou seu rosto na minha boca. ameacei, dei um tapa e falei: - você não me encosta.

- tamo junto. ele disse.
tamo junto. você me conhece. tamo junto.

eu não... eu não acredito nas coisas que ouvi. e hoje, depois de três dias que realizei a ação. ainda escuto essa voz. ainda fica repetindo algumas frases da minha cabeça. o cheiro de cachaça. a caixinha parou.

- TOCA! TOCA! TOCA!
ele não parava de falar.
- FALA! FALA! FALA! FALA!
ele não parava de falar.

- Eu Márcio, você? Você me conhece.
- EU MÁRCIO! VOCÊ?

eu não parava de apertar lo com a minha caixinha. ele ainda sorria. ia embora e voltava. parecia que precisava ganhar mais força com o impulso. me olhava.

- FALA! FALA! FALA!

naquele momento... o meu silêncio, foi o meu porto seguro.


espaço movimento. 
naquele mesmo dia, a noite... eu ainda escrevia.





                                                                              hoje.
                                                                              silêncio.
                                                               hoje
 – você não me encosta.

ela é muda.

gestos, e mais gestos. acho que aprendi direito.

sai!
-toca, toca, toca, toca.
- você está tensa.
- ELA ME PARALISOU.

eu estava amarrada. pés, mãos, tronco e uma linha que cruzava tudo. eu não falava. eu no início, só dançava. ela eu, não rela neu.

- você está bem? achei que fosse uma cena.  nem sei onde esse cara mora.
- ele é garçom.
- ele é doente.
- ele é alcoólatra.

- eu preciso de ajuda. – ele dizia. – você precisa de ajuda.

eu?

a be
bida
a bebida não é nenhuma forma de justificativa para qualquer agressão, ação contra a qualquer mulher. não justifica, não insista.
ele insistia.
vinha de cá para lá.
brincava comigo.
- não chora.
- eu não te fiz nada.
- eu não te fiz nada e te perdôo.

CUSPO! CUSPO! CUSPO!

CUSPI NA CARA. SEM MEDO DE LEVAR PORRADA!
CUSPI NO CHÃO. AVISO PRÉVIO MEU IRMÃO.
SEGUNDA VEZ, CUSPI NO OLHO, CUSPI COM ENGODO.
cuspi, cuspi, cuspi. para chamar atenção de alguém. cuspia.
de mãos amarradas fiz o que podia fazer.
cuspir.

- eu não te fiz nada e te perdôo.
- eu márcio, você?
- fala! fala! fala!
- toca! toca! toca!

a caixinha de música, pontiaguda, meu limite minha proteção.
eu machucava, queria que sangrasse.
e ele saia e vinha. saia e vinha
seu olhar me perseguia.
saia e vinha. olhava, oprimia.

- eu preciso de ajuda.
- porque? porque?
- você me conhece.

- ele é garçom.
- ele ta no bar aqui direto, quando eu saio do plantão, ele está lá. já mexeu comigo várias vezes.
- eu achei que fosse uma cena. hoje é a semana da mulher, né?

eu dançava, essa era a minha ação. ele chegou e não parou de desafiar, de encarar, de insinuar, de cutucar, de implorar, de revidar, de chantagear, de exclamar, de atormentar, de se queixar, de vacilar.

- é igual uma luta, né.
- é uma luta né?
- fala! fala! fala! fala!

ele ordenava, cara de quem ordenhava. jeito de sujeito refeito.

- você me conhece.


conheço. está certíssimo. estudo, pesquiso caras desses jeitos. covardes que usam nós, mulheres para se manterem na posição de macho alfa, procriador. conheço e abomino.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

os comentários deste blog não são moderados. no entanto, comentários ofensivos ou que manifestem discurso de ódio serão excluídos.