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O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes e mulheres da comunidade ouropretana. Os encontros do núcleo ocorrem no DEART e, neste semestre, são às terças-feiras, de 19 às 21h, e às quartas, de 10 às 13 h.
Atualmente o NINFEIAS é composto pelas performers pesquisadoras Thaiz Cantasini, Karla Ribeiro, Mara Reis, Mayra Pietrantonio, Carolina Reis e Lívia Maria. Também participam desta rede colaborativa: Paola Giovana, Olívia Coelho, Isabelle Balbi, Isabella Mayrink, Thaís Muniz e Carolina Pienegonda.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Músicas Machistas, Cultura do Estupro e Empoderamento de Mulheres

Sempre tiveram músicas machistas, né? Não somente no funk ou em outros gêneros originalmente periféricos, como o samba em sua raiz. Mas também na bossa nova, nas músicas tradicionais e no rock, nacional e estrangeiro. Vou me ater a tratar aqui da música brasileira, que é do contexto em que vivo e, via de regra, a música que, como DJ, toco.
E quando falo de distinção de graus de machismo, não é pra justificar o machismo, dizendo que é isso mesmo, que a música reflete o seu tempo... sim, óbvio. Então a gente vai ter “Ai que saudades da Amélia”, que é machista pra caramba: ela pensa a mulher dentro da dicotomia santa/puta e também em uma mulher domesticada como o ideal feminino. Mas é bem diferente, ainda, de uma música como "Mulher Indigesta" (Noel Rosa)  – "Mas que mulher indigesta, indigesta! /Merece um tijolo na testa"  – ou do samba de roda “Se essa mulher fosse minha”: "Se essa mulher fosse minha / Eu tirava do samba já, já / Dava uma surra nela / Que ela gritava: Chega / Chega / Oh meu amor / Eu vou-me embora da roda de samba eu vou"... No segundo caso, não há nem implícito. A(s) música(s) incita(m) diretamente a violência.
A mais recente polêmica é com o funk “Surubinha de leve”**, do MC Diguinho. Sempre fico um pouco cabreira com a crítica ao funk, porque às vezes percebo que tá misturado também um lugar de classe e de raça, sabe? Mas não tem como negar que essa música tem uma letra violenta, que incita ao estupro né? Penso que a cultura do estupro não tá só aí não, acho que está também na ideia geral da mulher como propriedade e objeto, o que pode levar, inclusive, a outras violências como feminicídio. Também está na sexualização precoce de meninos que já aprendem, ainda crianças, a ver mulher como pedaço de carne, o que é evidenciado muito bem no clipe do MC Doguinha (“Vamos Fazer Sacanagem”). Mas se vamos falar de funk, a gente precisa olhar o outro lado também, quando a mulher assume controle da sua sexualidade e do seu desejo.
Posso citar as clássicas “A porra da buceta é minha” (Deise Tigrona), “Larguei do meu marido virei puta” (Gaiola das Popozudas) e “Estaladinha” (Mulher Filé), além das músicas da dona do meu set, MC Carol: “Meu namorado é o maior otário” ou “Propaganda enganosa”. Ah, sem contar “100% Feminista”, que a maravilhosa divide com Karol Conká. Ainda no funk, gosto de citar MC Jessica, por causa da resposta bem paródia a um pagodão dos anos 90 (do grupo Só pra Contrariar): “Tô fazendo amor com a favela toda”!
Tem muito moralismo classe média (com dificuldade em compreender uma linguagem periférica) que confunde isso com objetificação da mulher. No meu entendimento, é muito diferente a mulher dizer o que gosta e o que quer, e se afirmar como dona de seu corpo, e essa ideia da mulher como objeto, inclusive do lar, coisa que está na música brasileira não é de hoje. Basta ouvir um samba como “Minha Nega Na Janela” (Germano Mathias, 1957) – que, além de tudo, é racista: "Minha nega na janela/ Diz que está tirando linha / Êta nega tu é feia / Que parece macaquinha / Olhei pra ela e disse / Vai já pra cozinha / Dei um murro nela / E joguei ela dentro da pia / quem foi que disse que essa nega não cabia?"  – ou, mais recentemente, “Mulher não manda em homem” do grupo de pagode Vou pro Sereno, pra perceber isso.
Esse processo de objetificação da mulher em nossa cultura patriarcal – em que ela é percebida como “propriedade” masculina – conduz à ideia de que o homem tem direito de dispor dela como quiser e, não somente abusar dela ou agredi-la sexualmente, mas também agredi-la fisicamente, espancá-la e, inclusive, exterminá-la, caso a mulher não “corresponda” ao seu “amor” ou às suas vontades.
É o que expressam músicas como “Se te agarro com outro te mato” (Sidney Magal, 1977)  ou, ainda, o samba “Faixa Amarela”, cantado tranquilamente por Zeca Pagodinho: “Sem falar na tal faixa amarela/ Bordada com o nome dela/ Que eu vou mandar pendurar/ Na entrada da favela/ Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela/ Vou lhe dar uma banda de frente/ Quebrar cinco dentes e quatro costelas/ Vou pegar a tal faixa amarela/ Gravada com o nome dela/ E mandar incendiar/ Na entrada da favela”.
Preocupantes também são músicas como “Vida de Balada”, da dupla sertaneja Henrique e Juliano, que romantiza relações abusivas, perseguição, em que a vontade e a escolha da mulher não importam: "Tô a fim de você/ E se não tiver, você vai ter que ficar/ Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada/ E dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca/ Vai namorar comigo, sim!/ Vai por mim, igual nós dois não tem/ Se reclamar, ce vai casar também”. Ou a criminosa "Noiva-cadáver"***, que romantiza o feminicídio em um país em que são mortas cerca de 15 mulheres por dia, 70% assassinadas por homens que diziam amá-las. Enfim, eu poderia citar ainda inúmeras outras, desde a coisificante e violenta canção infantil “Maria Chiquinha” (cantada pela dupla Sandy & Júnior, ainda crianças) até as músicas do Raimundos (tem mais de uma) ou do Velhas Virgens: a lista é infinita!
Mas é porque, precisamente, a música reflete o seu tempo, e isso significa também mudança, transformação, evolução, é que a gente tem, hoje em dia, rappers como Criolo e Mano Brown rediscutindo músicas machistas que compuseram há poucos anos atrás, refazendo letras.
Mas é óbvio (pelo menos pra mim) que eles não estão fazendo isso à toa ou porque são “bonzinhos”. É principalmente porque estão sendo questionados, colocados em xeque. Porque a mulherada não tá aceitando mais: estamos criticando e reivindicando outros olhares sobre nós e nossos corpos. Basta! Não queremos mais continuar sendo mortas, abusadas, agredidas!
É também por isso, porque a música reflete o seu tempo, que penso que a gente precisa prestar mais (muita) atenção na produção musical de mulheres. É ato de resistência! Seja produzindo música – sem que, necessariamente, esteja se pensando em uma agenda feminista –  seja assumindo, em suas letras, posições de denúncia e de confronto deste machismo tão arraigado em nossa cultura.
No rap, por exemplo, temos muitas mulheres fodas, desde a ativista feminista Luana Hansen – que fez “Minha xota te ama”, uma versão lésbica genial do funk “Deu onda” – até a rapper mais pop do Brasil, Karol Conká, com o hino “Lalá”, em que critica o pouco cuidado masculino com o sexo oral e com o prazer da mulher. Tem ainda Rimas & Melodias e, em Belo Horizonte, temos Tamara FranklinZaika dos Santos, Sarah Guedes, só pra citar algumas das que mais admiro.
Mas também no coco, no samba, na MPB de um modo geral, no rock, temos mulheres que tão propondo a diferença. Aíla, Letrux, Karina Buhr, Alessandra Leão, Larissa Luz, Pitty... E não posso deixar de citar a gloriosa rainha Elza Soares – resistência na vida! – com o hino feminista, “Maria da Vila Matilde”, do fodástico álbum Mulher do Fim do Mundo (eleito pelo New York Times como um dos 10 melhores álbuns de 2016).
Só para dar um último exemplo, vou lembrar de um coco lindo de D. Aurinha, "Seu Grito", que denuncia um feminicídio. Ele fala assim: "Seu grito silenciou/ lá no alto em Olinda/ era uma mulher tão linda/ que a natureza criou./// Ela foi morta/ no meio da madrugada/ com um tiro de espingarda/ pela mão do seu amor./// Fico orando/ a Deus peço clemência/ com toda essa violência/ o mundo vai se acabar./// Moro em Olinda/ canto coco com amor/ luto contra a violência/ porque mulher também sou./// Eu sou guerreira mulher/ mulher guerreira eu sou/ eu canto coco em Olinda/ e canto com muito amor."
Quero terminar meu texto com esse coco que eu amo, por causa da afirmação
de D. Aurinha: luto contra a violência porque mulher também sou.
Somos mulheres e estamos produzindo música. Escutem-nos.

Quem quiser ouvir mais e conhecer com calma outras mulheres fodas, tem as minhas playlists feministas no soundcloud, DJ Shaitemi Muganga.


**Após denúncias de que "Surubinha de Leve" fazia apologia ao estupro, a música foi retirada da web, por isso a ausência de link.

***Após denúncias, o vídeo foi removido do youtube pelo compositor de Noiva-Cadáver, Rafa Kamaitachi.

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