foto

foto

ninfeias

O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes e mulheres da comunidade ouropretana. Os encontros do núcleo ocorrem no DEART e, neste semestre, são às terças-feiras, de 19 às 21h, e às quartas, de 10 às 13 h.
Atualmente o NINFEIAS é composto pelas performers pesquisadoras Thaiz Cantasini, Karla Ribeiro, Mara Reis, Mayra Pietrantonio, Carolina Reis e Lívia Maria. Também participam desta rede colaborativa: Paola Giovana, Olívia Coelho, Isabelle Balbi, Isabella Mayrink, Thaís Muniz e Carolina Pienegonda.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Entrevista para o Programa Conexão - Canal Futura

edit: [entrevista preparatória para o programa "Empoderamento Feminino e cultura do estupro na música", que foi ao ar no dia 22/02/2018)

1) O que é o NINFEIAS?
O NINFEIAS é um Núcleo de INvestigações FEminIstAS que coordeno, desde 2013, em Ouro Preto e que pesquisa as relações entre performance e feminismo. O núcleo é ligado à UFOP – Universidade Federal de Ouro Preto, por meio da minha atuação junto ao PPGAC – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas do qual sou professora.
Atualmente pertencem ao NINFEIAS, além de mim, Carol Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria (estudantes do Curso de Artes Cênicas) e Mayra Pietrantonio (estudante de Museologia). A gente vem criando experimentos cênico-performativos livremente inspirados na obra “Monólogos da Vagina”, além de atuar junto à comunidade ouro-pretana por meio de várias ações extensionistas, que vão desde oficinas de Educação pela Igualdade (ministradas a profissionais da educação e estudantes da rede pública da cidade) até rodas de conversa sobre Cultura do Estupro, que ocorrem em diversos lugares, para diferentes públicos. Fazemos também semanas temáticas, como a semana AfroFeminista – que realizamos de 20 a 25 de novembro de 2017 e teve como tema principal o protagonismo da mulher negra – e sessões de cinema, entre outras atividades.

2) Como surgiu essa criação, essa ideia?
Desde 2008 que pesquiso, em Belo Horizonte, essa relação entre performance e feminismo (junto ao obsCENA – agrupamento independente de pesquisa cênica). Em 2011, após a finalização do meu doutorado, retorno a Ouro Preto com muito desejo de aproximar essa investigação da realidade da cidade, extremamente conservadora e patriarcal. Então, juntei-me a outra pesquisadora – Thaiz Cantasini, artista fenomenal e educadora – e fundamos o NINFEIAS com o intuito de agregar outras mulheres que tivessem interesse em pensar ações de combate à violência que diariamente sofremos.

3) Nossa pauta surgiu a partir da discussão sobre a música "surubinha de leve". Como você recebeu essa música?
Então... Sempre tivemos músicas machistas no Brasil... São reflexo de nossas realidades sociais, do modo como nossa cultura vê a mulher. E isso, evidentemente, não somente no funk ou somente em gêneros populares, como o samba em sua raiz. Mas também na MPB e no rock, nacional e estrangeiro.
Sempre fico um pouco cabreira com a crítica ao funk, porque às vezes tá misturado também um lugar de classe e de raça, sabe? Mas não tem como negar que essa música tem uma letra violenta, que incita à violência né? Penso que a cultura do estupro não tá só aí, acho que tá na ideia geral da mulher como propriedade e objeto, o que pode gerar, inclusive, outras violências como feminicídio. Acho que tá também na sexualização precoce de meninos, que já aprendem ainda crianças e ver mulher como pedaço de carne, o que evidencia muito bem o clipe do mc Doguinha.
Mas se vamos falar de funk, a gente precisa olhar o outro lado também, quando a mulher assume controle da sua sexualidade e do seu desejo. E, nesse sentido, eu poderia citar várias mulheres e músicas que fazem parte deste contraponto: “A porra da buceta é minha” (Deise Tigrona), “Larguei meu marido virei puta” (Gaiola das Popozudas) e “Estaladinha” (Mulher Filé), além das músicas da rainha do meu set, Mc Carol: “Meu namorado é o maior otário” ou “Propaganda enganosa”. Gosto de citar também a MC Jessica, por causa da resposta bem paródia a um pagodão dos anos 90 (do grupo Só pra contrariar): “Tô fazendo amor com a favela toda”!

4) Esse movimento de mulheres que cantam e escrevem letras sobre o empoderamento feminino é algo novo ou sempre existiu? Porque lembramos de músicas feitas por antigas mulheres que falavam de família, amor etc... Hoje, as letras falam mais sobre o empoderamento, como no caso da música da Lila que fala "não é não". É algo atual?
Eu diria que a gente conhece pouco ainda a produção feminina, ela ainda é pouco valorizada, embora tenhamos mulheres compondo e cantando músicas há décadas... Faz parte da minha pesquisa o que chamo de “discotecagem feminista”, em que procuro conhecer e tocar músicas de mulheres. Pra mim, mulher fazendo música já é um ato de resistência – ainda que não estejam, necessariamente, pensando em uma agenda feminista. Mas muitas vezes, as mulheres estão assumindo, em suas letras, posições de denúncia e de confronto deste machismo tão arraigado em nossa cultura.
No rap, por exemplo, temos muitas mulheres fodas, desde a ativista feminista Luana Hansen – que fez uma versão lésbica genial do funk “Deu onda” – até a rapper mais pop do Brasil, Karol Conká, com o hino “Lalá”, em que critica o pouco cuidado masculino com o prazer sexual da mulher. Tem ainda Rimas & Melodias e, em Belo Horizonte, temos a Tamara Franklin, a Zaika dos Santos, Sarah Guedes, só pra citar algumas das que mais admiro.
Mas também no coco, no samba, na MPB, temos mulheres que tão propondo a diferença. Aíla, Letrux, a dona da porra toda e também do meu coração, Elza Soares....  Só pra dar um último exemplo, vou lembrar de um coco lindo, que eu amo, da D. Aurinha do Coco. Esse coco, “Seu Grito”, denuncia um feminicídio. Ele fala assim: Seu grito silenciou/ lá no alto em Olinda/ era uma mulher tão linda/ que a natureza criou./// Ela foi morta/ no meio da madrugada/ com um tiro de espingarda/ pela mão do seu amor./// Fico orando/ a Deus peço clemência/ com toda essa violência/ o mundo vai se acabar./// Moro em Olinda/ canto coco com amor/ luto contra a violência/ porque mulher também sou./// Eu sou guerreira mulher/ mulher guerreira eu sou/ eu canto coco em Olinda/ e canto com muito amor."
Quem quiser ouvir mais e conhecer com calma outras mulheres fodas, tem os meus setlist no soundcloud, DJ Shaitemi Muganga:  .

Nenhum comentário:

Postar um comentário

os comentários deste blog não são moderados. no entanto, comentários ofensivos ou que manifestem discurso de ódio serão excluídos.