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O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes e mulheres da comunidade ouropretana. Os encontros do núcleo ocorrem no DEART e, neste semestre, são às terças-feiras, de 19 às 21h, e às quartas, de 10 às 13 h.
Atualmente o NINFEIAS é composto pelas performers pesquisadoras Thaiz Cantasini, Karla Ribeiro, Mara Reis, Mayra Pietrantonio, Carolina Reis e Lívia Maria. Também participam desta rede colaborativa: Paola Giovana, Olívia Coelho, Isabelle Balbi, Isabella Mayrink, Thaís Muniz e Carolina Pienegonda.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ARTE/VIDA, FEMINISMO E O SOM DO CHUTE NO CÁRCERE.

                                                                         Thaiz Cantasini

Sinto-me vitoriosa por ser separada e ter caçado meu próprio canto. Adoro minha casa, a varanda sem horá
rio, o pé de manjericão, meu pisca-pisca ligado na sala sem ser Natal. A casa é alugada, mas é o melhor que posso fazer por mim e por minha filha agora. Gostamos tanto daqui!
Mas não se engane, leitorx: a vida não deixou de esbofetear e de rir da minha cara. Mas agora com uma diferença: sei responder, afiei minha língua nessa pedra-de-amolar (que é o cotidiano) e apurei o meu silêncio ao ponto de tornar-me completamente indiferente ou no mínimo piedosa quando a vida resolve ser cínica, arrogante ou babaca comigo. Uso a palavra vida aqui como uma metáfora.
Foi importante ter estudado e ainda estar estudando. Eu tenho 35 anos e faço mestrado em Artes Cênicas.
Estudando pude conhecer outras mulheres, trocar conhecimentos, revigorar vida e arte, livros e con-vivências. Toda mulher pode romper o exílio. E outras vão nos acolher porque nós sabemos umas das outras.
Comecei a escrever este texto depois de pensar no meu exílio e hoje consigo perceber que estou em movimento. Não nasci prá ficar estacionada. Não sinto tesão por gente estacionada.
Digo isso depois de engolir um marasmo enorme e por isso hoje sou mesmo insuportável. Sou insuportável porque não caibo em mim, estou em estado de criação e de poesia o tempo todo. Descobri que transbordo e aviso para as outras que o casamento precisa ser reinventado desde o termo, que esse negócio de fundir e virar um, só faz mesmo, com o tempo, é anular quem a gente é. Não posso falar pela experiência de todas, mas eu, cá com meus percalços, arrisquei-me em exercitar ser várias, experimentar a dimensão da minha existência e não justificar o que opto quando o assunto é o MEU corpo.
Eu não me censuro porque descobri que tenho direito de ser e de respeitar meus desejos, meus sonhos. Eu atropelei por muito tempo os meus devires e por pouco não os matei: fiz um curso de Direito por 9 anos querendo o tempo todo estudar teatro...e quando saí, exigiram que eu carregasse só a culpa já que havia renunciado o diploma (“Tadinha, ela não deu certo”). Abaixei muito a minha cabeça para um bando de homem dentro e fora de casa. Acorcundei. Cedi o meu corpo como coisa aí pro mundo porque não era senhora de nada, nem senhora de mim. Obedeci demais. Obedeci porque tive medo. Obedeci porque “se não obedecer, apanha”. Mas a surra maior que a gente leva é por obedecer demais. Eu fugi de casa, eu fugi do curso que não queria fazer, eu fugi do casamento. Escapei, mas não ilesa. Nunca estamos ilesas. E faço arte hoje pelas brechas que encontro para fugir das prisões desse cotidiano-mulher que estica seu tapete de sangue vermelho-ancestral e eu quero uma história diferente das que conheci.
Eu teria virado nada se não descobrisse que eu sempre fui uma feminista (e isso gritou depois da morte de minha mãe em 1996, quando a família achou que eu precisava de vigília reforçada por ser a única mulher da casa: casar virgem, ter horário para chegar e sair, fechar as pernas.) e que existem mulheres com histórias parecidas com a minha...e que nem todas estão vivas (ou autorizadas) para um papo reto sobre isso. Sim, nós deixamos de fazer muita coisa por sermos mulheres.
Casar e ter filhxs foi para muitas a única possibilidade de destino.

Deixe-me escrever um poema por dia e aos poucos vou sendo o que eu achar melhor prá mim.
Faço isso por minha filha, Eva.

A maneira mais sincera do meu fazer artístico se dá porque eu me reconheço como uma mulher feminista. Porque nada que eu faça no âmbito das artes anulará a mulher que está inscrita em mim. E eu não faço arte pela metade: Meu corpo está para o meu discurso. Minha pele está para a minha geografia fêmea. Minha voz está para as vozes que calei e quando eu cantar estarei rompendo essa mordaça.
A gente só percebe o quanto obedece quando tem a chance de respirar. Eu respiro neste aqui e agora, na intocável impermanência deste instante (apesar do meu vício irrevogável pelos cigarros de palha: herança daqui das Minas Gerais).
Este escape para sentir o sabor da própria pele e a possibilidade de amar nosso corpo no mundo como potência impossível e precária, insuportável e poética, nos dilata: somos de novo paridas. Lançadas no mundo e encontramos umas nas outras molhos densos de chaves que podem romper portas enguiçadas, insistentes vigílias, ferrolhos e cárceres.

Por via das dúvidas, sabemos chutar.



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[Thaiz Cantasini é licenciada em Artes Cênicas e mestranda em Poéticas e políticas da cena contemporânea pelo PPGAC UFOP. Compositora, mãe, poeta, performer e ativista feminista nos coletivos Ninfeias-Núcleo de Investigações Feministas e Coletivo Minas da Voz]

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