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ninfeias

O NINFEIAS, núcleo de pesquisa coordenado pela pesquisadora e performer Nina Caetano - professora do departamento de artes cênicas da UFOP - visa a investigação de teorias feministas e práticas performativas. Funciona como uma rede colaborativa, instigando a provocação artística, encontros e trocas entre estudantes da Graduação e da Pós Graduação da UFOP e a comunidade ouropretana.
Atualmente o NINFEIAS é composto por Amanda Marcondes, B. Campos, Caroline Andrade, Caroline de Paula, Caroline Moraes, Danielle dos Anjos, Giulia Oliva, Jackeline Análio, Keila Assis, Marcinha Baobá e Renata Santana.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

minha vagina sente

minha vagina sente
espasmos calor frio
calafrios
minha vagina sente(-se)
em arroubos e contrações involuntárias
minha vagina sente o tesão crescer
em descargas elétricas
estremecimentos
minha vagina sente sem querer.
ela se alonga, preguiçosa
ao sentir o dedo em suas bordas
ela geme e grunhe
sente o toque a língua a saliva úmida
ela sente o cheiro de suas axilas
e sorri
minha vagina sente amor
ela sangra
ela escorre e se aprofunda
minha vagina abisma-se em si
invagina-se.

minha vagina é um animal selvagem

minha vagina é um animal selvagem,
gata arisca que não se deixa amansar.
precisa chegar devagar, sem querer domar
ela é voraz, inquieta
quer agradar? é só lambê-la toda.
e sem pressa.


sua vagina tem cheiro de que?

sua vagina tem cheiro de que?


minha vagina tem cheiro de
vagina
sangue
aloe vera
cachoeira
mar
manjericão
orgasmo
floresta
sal
maconha
segredo
cachaça
perfume de pomba gira (risadas)
(risadas)
chiclete tutti frutti
água benta
champagne com morangos
gasolina (gasolina neles!)
cheiro de choro
de lágrima
de cuspe.

exercício de criação do experimento cênico-performativo Monólogos da Vagina
com Carolina Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria, Mara Reis e Mayra Pietrantonio.

se sua vagina se vestisse, ela vestiria o que?


se sua vagina se vestisse, ela vestiria o que?


se minha vagina se vestisse, ela vestiria                                                                          
erva de cheiro
terno
pétalas
arame
chave
cortina
renda
chitão
água
ela não ia usar nada
pregador
armadura
barro
guerra
gozo
nuvem
espinho
asas
gripe
cabelo

exercício de criação do experimento cênico-performativo Monólogos da Vagina
com Carolina Reis, Karla Ribeiro, Lívia Maria, Mara Reis e Mayra Pietrantonio.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mulher, Performance e Violência











                         

“Seu corpo é um campo de batalha”
[famoso  cartaz pró-aborto, concebido pela  ativista
feminista estadunidense Barbara Kruger, em 1989].


Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são construídas.
Mulher princesa. Mulher boneca. Mulher rosa. Mulher sobremesa. Mulher de cama e mesa. Mulher doce dócil muda. Mulher morta. Mulher, uma obra em construção: Sorriso. Batom Boca Beijo. Depiladores hidratantes sutiãs pregadores talheres vassoura gleidy sachê escova progressiva inteligente. Silicone. Peito. Bunda. Coxa. 100% completa. Como você gosta. Pronta para consumo imediato. Sarada. Turbinada. Preparada. Plastificada. Espancada. Esquartejada. Morta. Jogada pros cachorros. na lagoa. no lixo. Como você gosta?
Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para você.
Mulher. Ser humano do sexo feminino capaz de conceber e gerar outro ser humano e que se distingue do homem por essa característica. A mulher em relação ao marido. Esposa. Casar. Amar e respeitar até que a morte os separe. Cuidar. Cozinhar. Limpar. Lavar. Passar. Sujeitar. Sorrir. Servir bem para servir sempre. Agradar. Transar. Mesmo sem vontade. Mesmo sem vontade apanhar. Compreender. Apanhar. Perdoar. Apanhar. Esquecer. Esquecer. Esquecer. Morrer. Mesmo sem vontade.
Todos os dias, nas ruas da cidade, mulheres são destruídas. Destruir. Dar cabo de. Aniquilar. Ex-terminar. A cada 90 minutos, uma mulher é assassinada no Brasil. 70% das mulheres mortas no país são vítimas de seus (ex) namorados, noivos, maridos. 10% desses homens são agentes da segurança pública. Amar e proteger. Conceição de Maria, 43 anos. Morta a socos pelo marido, policial militar reformado. Osailda, 45 anos, morta por envenenamento. O marido segue em liberdade, assim como o assassino de Débora Souza, 20 anos, atendente do Maria Bonita de Ouro Preto. Também em Ouro Preto, Amanda Linhares, 17 anos, foi ex-terminada pelo ex-namorado, delegado de polícia da cidade. Fernanda Sante Limeira, 35 anos. O ex-marido apontou a arma e atirou 4 vezes, sem que ela pudesse reagir. Em Corinto, cidade em que minha mãe foi sistematicamente espancada pelo meu pai sem que ninguém metesse a colher, Júlia, uma senhora de 80 anos, foi morta pelo marido. No Sul, Natália, 16 anos, grávida de 3 meses, foi morta pelo namorado com pelo menos 80 facadas, sem que ela eu você. sem que ninguém reagisse .
Iniciei essa conversa tecendo o manifesto que, na performance Espaço do Silêncio, ofereço à leitura de passantes. Alterno esta ação com o ato de imprimir, em um branco lençol de casal, cruzes vermelhas e, sob cada uma delas, etiquetas. Cada etiqueta contém o nome de uma mulher vítima de feminicídio, sua idade, profissão, e localidade em que o crime ocorreu. Além disso, traz o modo como a mulher foi assassinada e o vínculo que seu assassino mantinha com ela. Uma cruz vermelha cerra minha boca.
Nesse ritual silencioso com que traço o meu legado de injustiças, cada etiqueta se transmuta em uma espécie de lápide, construindo “um cemitério simbólico”.  Meu olhar é duro, não há condescendência. Pois cada um de nós precisa se haver com nossa parcela de responsabilidade por estar no mundo[1].
De fato, sinto que essa ação a cada dia vem cobrar de mim a minha parcela de estar mergulhada de corpo inteiro neste mundo e de fazer dele minha matéria. Parafraseando a performer e pesquisadora Eleonora Fabião (2008: 238): não somos nós, performers, quem, ao evidenciar o corpo, deseja tornar evidente o corpo-mundo?
Espaço do Silêncio é um gesto de denúncia e de indignação.
Aqui, retomo a expressão da ativista feminista estadunidense Carol Hanisch – “o pessoal é político” –  para tratar dessa espécie de grito, que sai de dentro do campo de batalha que é o meu corpo. [aqui, parafraseando outra ativista feminista estadunidense, Barbara Kruger, em seu famoso cartaz pró-aborto: Seu corpo é um campo de batalha]. De dentro do campo de batalha que é o meu corpo sai esse grito, o grito de quem sente na carne as violências decorrentes de uma performance de gênero imposta socialmente. E que, quando não o sente diretamente, se propõe a ser palco para a voz de outras tantas mulheres, silenciadas por uma estrutura machista, cruel: seja na forma de neutralização de nossa voz política, seja na naturalização e romantização de relações que violam ou aniquilam os nossos corpos.
Espaço do Silêncio é uma performance de rua com cerca de 07 horas de duração. Nesse trabalho, busco escutar a voz de mulheres que não foram ouvidas em tempo de evitar seu aniquilamento. Das 365 mulheres que habitam cada lençol que “bordo” em minha ação, muitas denunciaram as violências que sofriam. Muitas recorreram à justiça, buscando proteção. Outras se calaram antes, ou foram silenciadas. Suas vozes, desinvestidas de valor e de poder.
Não, em um país em que se mata, em média, 13 mulheres por dia[2], esta não pode mais ser tratada como uma questão de âmbito estritamente privado, doméstico. Não, essa não é uma questão pessoal.
Constato, a cada dia, que Espaço do Silêncio, antes de tudo, me convoca a uma espécie de missão. Qual missão eu ainda tateio, ainda tateio o que preciso fazer com o que faço. Pois essa performance tem se revelado muito maior do que eu. Ela tem me revelado dimensões inusitadas e alcances inesperados. E penso que realizá-la é a minha chance de conhece-la. Nesse tatear, vou então a alguns fatos, que trago em notas sobre ela:
1ª nota: Em 29 de julho deste ano, fui procurada via Messenger por Rosy Souza. Ela me disse que havia visto, em compartilhamentos do facebook, materiais sobre a performance. Nesses materiais, o nome de sua tia, Osailda de Sousa Coelho, de 45 anos, assassinada por envenenamento pelo marido, em Dom Expedito Lopes, Piauí. Rosy me disse que ela havia visto o nome da tia e resolvido me procurar. Rosy quer justiça, ela luta para que o crime, ocorrido em fevereiro de 2015, seja julgado como tal e o feminicida – que permanece em liberdade – seja punido. Ela luta para que o crime não seja esquecido e para que a memória de sua tia não seja apagada.
2ª nota: Em 03 de setembro, fui novamente procurada via Messenger. Agora, por uma atriz e amiga que havia acompanhado, no final de 2015, a mesa de debates “Feminicídio: o corpo da artista e a fabricação do corpo feminino”, da qual participei na II Bienal Internacional de Teatro da USP. Na ocasião, tratei desta ação, Espaço do Silêncio, e Vanessa Biffon, a minha amiga atriz, tendo vivido recentemente uma perda, lembrou-se de mim: no final de julho, Fernanda Sante Limeira, a irmã de uma grande amiga dela, foi assassinada pelo ex-marido e o desejo de Vanessa era que eu fizesse minha ação também em memória de Fernanda.
3ª nota: Em 07 de setembro deste ano, junto ao Grito dos Excluídos, realizei, na Praça 7, a performance em memória de Fernanda. Nesse dia, durante a realização da ação, uma mulher, Rita, quis falar comigo: ela queria me dar o nome da irmã, para que ela também figurasse em meu lençol. A irmã, Maria do Carmo Souza Galli, foi assassinada pelo marido há mais de 30 anos e ele nunca foi nem sequer indiciado: o crime foi visto como suicídio, embora um laudo pedido pela família tenha comprovado que ela foi morta com 02 tiros nas costas.
Esses recentes acontecimentos têm me mostrado que Espaço do Silêncio não é só um gesto de denúncia e indignação. Não é só um gesto meu. É também espaço de memória para outras mulheres, um grito que ecoa, que repercute em outros corpos.
Qual a eficácia da ação na cena contemporânea?
Essa questão, lançada pela pesquisadora cubana Ileana Diéguez durante o Colóquio Pensar a Cena Contemporânea, tem sido mote para muitas das discussões e práticas em torno das possíveis relações entre arte e política ou, mais especificamente, entre as artes da presença e a ação política, que realizo dentro do projeto de pesquisa “Corpos Estranhos, Espaços de Resistência”, desenvolvido junto aos coletivos NINFEIAS (Ouro Preto) e Obscena (aqui, em BH).
O projeto investiga ações performativas e escritas performadas (em suas múltiplas dimensões e suportes) que tem como eixo as diferentes corporeidades e práticas espaciais produzidas nas relações de enfrentamento e convívio ocorridas no espaço urbano. Interessam-me, sobremaneira, as corporeidades vistas a partir das questões de gênero[3], sendo objeto de investigação as práticas parodísticas e de (auto)invenção de corpos que visam perturbar as lógicas de padronização e espetacularização das subjetividades e colocar em xeque discursividades e representações que materializam os corpos, ou seja, é objeto de experimentação as práticas que desejam evidenciar os efeitos de poder que pesam sobre nossos corpos, tornando-os inteligíveis ou, ao contrário, tornando-os corpos invisíveis ou mesmo abjetos:

Nesse sentido, o que constitui a fixidez do corpo, seus contornos, seus movimentos, será plenamente material, mas a materialidade será repensada como o efeito do poder, como o efeito mais produtivo do poder. [...] O ‘sexo’ é, pois, não simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição estática daquilo que alguém é: ele é uma das normas pelas quais o ‘alguém’ simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural (BUTLER, 1999, p. 111).

Desse modo, vejo, nas articulações entre ativismo e performance, uma possibilidade de considerar a prática performática como uma nítida colocação/tomada de posição de corpos políticos marcados pela diferença e, talvez, marcados pela opressão e pela invisibilidade: o corpo da mulher, mas também o corpo dx negrx, dx transgênerx, e tantos, tantos outros corpos possíveis! Nesse sentido, considero que a performance pode, muitas vezes, alargar as fronteiras de sua ação política e flertar diretamente com os movimentos sociais, performatizando-os.

Esta é, a meu ver, a força da performance: turbinar a relação do cidadão com a polis; do agente histórico com seu contexto; do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. Esta é a potência da performance: deshabituar, des-mecanizar, escovar a contra-pêlo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o estabelecido, de experimentar estados psicofísicos alterados, de criar situações que disseminam dissonâncias diversas: dissonâncias de ordem econômica, emocional, biológica, ideológica, psicológica, espiritual, identitária, sexual, política, estética, social, racial... (FABIÃO, 2008: 237).

Evidentemente, não é exclusividade da performance a possibilidade de “disseminar dissonâncias”, até mesmo porque ela não escapa da institucionalização ou mercantilização de sua produção[4]. No geral, esta tem sido a tarefa de toda arte que se pretende política. No campo das artes da presença, me interessam especialmente as diversas modalidades cênicas que, escapando de uma taxinomia teatral mais tradicional, experimentam as relações entre arte e vida, estética e ética, imbricando criação artística e ato ético.
Dessa perspectiva, sem dúvida nenhuma é possível também alinhar a essa discussão aquilo que Ileana Diéguez chama de performances ou “ações cidadãs”, ou seja, “os gestos simbólicos que colocam vontades coletivas na esfera pública e constroem de outras maneiras seu ser político. Não tendo um fim estético, produzem uma linguagem que absorve a percepção e suscitam olhares a partir do campo artístico[5]”. Essas ações cidadãs podem abarcar desde as marchas silenciosas das Mães de Maio, na Argentina, até a Praia da Estação e outras ações ativistas, ligadas à militância política dos movimentos sociais e ao cyber ativismo.
É importante destacar que, embora a aproximação entre performance e ativismo não seja tão recente – remontando às décadas de 50 e 60 – parece haver, atualmente, um estreitamento desses laços. Se por um lado, como salienta Diéguez, podemos notar o “ressurgimento de uma politização na arte, através de práticas carnavalescas, lúdicas e corporais”, por outro lado, é bastante perceptível “o desenvolvimento de uma atitude estetizante das práticas políticas[6]” de diversos movimentos sociais – do feminismo e do ativismo LGBTT ao movimento negro – fazendo com que a experimentação expressiva do corpo possa acontecer em variados níveis. Na organização da Marcha das Vadias, só para citar um exemplo, é possível observar da construção de um corpo coletivo à individuação das marcas de opressão (ou de reivindicação de liberdade) nos corpos que performam múltiplos discursos sobre a mulher. Pois pensar o corpo da mulher já não nos coloca inúmeras questões, tais como: o que é “ser mulher”? O que a define? O que define um corpo como feminino? O que pode o corpo de uma mulher? E o que não pode?
Voltando então à questão colocada por Ileana Diéguez...  
Ao tratar da efetividade da ação na cena contemporânea, ela o faz colocando em xeque, inicialmente, o sentido desses 03 termos: efetividade, ação e cena contemporânea.
No que tange à cena contemporânea, ela questiona, em primeiro lugar, que tipo de cena se tem em mente quando usamos esse termo, uma vez que “a noção de “cena” se deslocou dos campos artísticos e cada vez mais tem sido considerada como lugar de onde se observam ou onde se refletem realidades sociais, históricas e políticas[7]” como, por exemplo, nas expressões “a cena hip hop” ou “a cena política atual”. Em seguida, Diéguez discute em que sentido “ação” está sendo considerada: “a ação como execução performática ou teatral, ou como acontecimento artístico em geral? Ou a ação como ato que compromete a unidade do ser”, ou seja, a ação como um ato em que o sujeito esteja eticamente engajado? E, por último, ela se pergunta em que sentido uma ação pode ser considerada efetiva, ou seja, “para quem ou para o que [ela] é efetiva e a partir de quais critérios – pragmáticos, artísticos, éticos – pode se medir esta ‘efetividade’” da ação?
Com essas questões como horizonte, Diéguez vai mergulhar em algumas reflexões levantadas pelo filósofo russo Bakhtin[8] para discutir as aproximações e limites entre arte e vida: “quando nos perguntamos se uma ação na arte pode ser concebida e sustentada como um ato na vida”. Continuando, ela salienta que, no projeto filosófico de Bakhtin, o ato ético é resultado da interação entre dois sujeitos distintos, não como relação formal, mas no sentido de uma responsabilidade concreta que condiciona o ser-para-outro.
Ainda segundo Diéguez, essa noção de implicação é o fundamento real do ato que implica também a prática artística como forma estética do ato ético. No entanto, nunca como uma ação técnica ou, muito menos, como um espetáculo do corpo. Em relação ao corpo do performer, ela salienta que o corpo do atuante (seja ator ou praticante)

...não é somente uma presença material que executa uma partitura performativa dentro de um marco autoreferencial e estético. [...] A presença é um ethos que assume não somente sua fisicalidade, mas também a eticidade do ato e as derivações de sua intervenção. A condição de performer enfatiza uma política da presença ao implicar uma participação ética, um rasgo em suas ações sem o encobrimento das histórias e personagens dramáticos.

Ou seja, para Diéguez, a presença abarca não só o aspecto físico, material, do performer, mas também a responsabilidade ética que ele toma para si ao colocar-se em um espaço cênico, assumindo todos os riscos daquilo que Eduardo Pavlovsky chama de “ética do corpo”.
Essas questões a Diéguez coloca para abordar algumas experiências das artes do corpo que aconteceram em “realidades em que se violam, somem ou aniquilam corpos”. Ou seja, para pensar experiências artísticas atravessadas pelo contexto histórico em que o corpo dx artista está não somente instalado, mas diretamente implicado.
Afinal, o que pode um corpo mover?

Uma experiência, por definição, determina um antes e um depois, corpo pré e corpo pós-experiência. Uma experiência é necessariamente transformadora, ou seja, um momento de trânsito da forma, literalmente, uma trans-forma. As escalas de transformação são evidentemente variadas e relativas, oscilam entre um sopro e um renascimento. Programas criam corpos – naqueles que os performam e naqueles que são afetados pela performance [...]. Corpos são vias, meios. Essas vias e meios são as maneiras como o corpo é capaz de afetar e de ser afetado. O corpo é definido [por Espinosa] pelos afetos que é capaz de gerar, gerir, receber e trocar. (FABIÃO, 2008, pp. 237-238).




Referências:
BERNSTEIN, Ana. Marina Abramovic: do corpo do artista ao corpo do público. IN: SÜSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia e AZEVEDO, Carlito (org.). Vozes Femininas: gênero, mediações e práticas de escrita. Rio de Janeiro: 7 letras: Fundação Casa Rui Barbosa, 2003, pp. 378-398.

BUTLER, Judith. Corpos que pesam IN: LOURO, Guaciara Lopes (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de Fazer. Petrópolis, Editora Vozes: 2014.

DIÉGUEZ CABALLERO, Ileana. Cenários Liminares: teatralidades, performances e política. Uberlândia: EDUFU, 2011.

FABIÃO, Eleonora. Performance e Teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea. IN: Revista Sala Preta, v.8, n.1. São Paulo, PPGAC da ECA-USP, 2008, pp. 237-238. Disponível na versão online:







[1], Trecho da crítica Esse silêncio grita por humanidade, de Ivana Moura, publicada no blog Satisfeita, Yolanda? Disponível em: http://www.satisfeitayolanda.com.br/blog/2015/12/21/esse-silencio-grita-por-humanidade/ .
[2] Sobre estatísticas de violência contra a mulher, ver Mapa da Violência 2015, disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/dados-nacionais-sobre-violencia-contra-a-mulher/ .
[3] BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
[4] Mas este é tema de outros textos... para quem se interessar, sugiro a leitura do artigo de Josette Féral (2015) “O que restou da performance art? Autópsia de uma função, nascimento de um gênero”, bem como meu artigo “A performance morreu? Antes ela do que eu”, publicado no Portal Primeiro Sinal e disponível em: http://www.primeirosinal.com.br/artigos/performance-morreu-antes-ela-do-que-eu .
[5] DIÉGUEZ, 2011, p. 14.
[6] DIÉGUEZ, 2011, pp. 19-20.
[7] Esta e todas as citações seguintes referem-se a DIÉGUEZ, Ileana. La “efectividad” de la “acción” en la “escena contemporánea”: ¿La práctica estética como acto? Texto inédito apresentado no colóquio Pensar a Cena Contemporânea, já citado anteriormente.
[8] BAKHTIN, Mikhail. A Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

3 horas de prosa, as 3 histórias e as três Marias.

Maria, esta é Maria. 
Maria, esta é Maria.
Maria, muito prazer: meu nome é Maria.
Dia de luto: Marias viúvas que lutam.
Homens violentos que morreram primeiro.
Os 4 tiros, o facão amolado toda noite embaixo da cama: "Hoje você vai trabalhar nesse quarto".
A fome, a rapa de arroz na casa da vizinha, os 4 filhos, o tapa na orelha que ainda dói: "As mulheres da zona são melhores que você".
Ser evangélica para agradecer a obra de Deus: Ser viúva foi milagre.
"Olha aqui a marca do tiro. Deus me salvou da morte."
"Santa Efigênia tem uma casa nas mãos. Eu estava desesperada e pedi uma casa para ela. Uma casa em minhas mãos também."
Comigo também, Maria.
"Quem casa quer casa. Eu queria ir embora da casa"
Maria, eu não sou evangélica. Mas eu sou mulher.
Maria, eu não sou católica. Mas eu sou mulher.
Me dá um abraço.
Maria, eu não quero parar de conversar com você.
dá seu telefone, eu quero guardar essa foto.
Eu mando prá você.
Eu perdoei a outra mulher dele. Somos amigas.
Eles estão mortos. Mas poderia ser a gente.
Maria com a bíblia na mão, agradece.
Maria, muito prazer. Esta é Maria.
Maria, muito prazer. Esta é Maria.
Choramos cortando nossas cebolas.
Nossa, já é hora do almoço.
Eu nem vi o tempo passar.
Volta?
Volto.
Eu também nunca vou me esquecer de você.
Maria, até logo.
Maria, até já.
Maria, boa tarde.
Maria, até outro dia.


(Thaiz Cantasini - 
Ação Por Marias e Evas - 
18/12/15. 
Das 9 ao meio dia.
Cachoeira do Campo-MG)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

ARTE/VIDA, FEMINISMO E O SOM DO CHUTE NO CÁRCERE.

                                                                         Thaiz Cantasini

Sinto-me vitoriosa por ser separada e ter caçado meu próprio canto. Adoro minha casa, a varanda sem horá
rio, o pé de manjericão, meu pisca-pisca ligado na sala sem ser Natal. A casa é alugada, mas é o melhor que posso fazer por mim e por minha filha agora. Gostamos tanto daqui!
Mas não se engane, leitorx: a vida não deixou de esbofetear e de rir da minha cara. Mas agora com uma diferença: sei responder, afiei minha língua nessa pedra-de-amolar (que é o cotidiano) e apurei o meu silêncio ao ponto de tornar-me completamente indiferente ou no mínimo piedosa quando a vida resolve ser cínica, arrogante ou babaca comigo. Uso a palavra vida aqui como uma metáfora.
Foi importante ter estudado e ainda estar estudando. Eu tenho 35 anos e faço mestrado em Artes Cênicas.
Estudando pude conhecer outras mulheres, trocar conhecimentos, revigorar vida e arte, livros e con-vivências. Toda mulher pode romper o exílio. E outras vão nos acolher porque nós sabemos umas das outras.
Comecei a escrever este texto depois de pensar no meu exílio e hoje consigo perceber que estou em movimento. Não nasci prá ficar estacionada. Não sinto tesão por gente estacionada.
Digo isso depois de engolir um marasmo enorme e por isso hoje sou mesmo insuportável. Sou insuportável porque não caibo em mim, estou em estado de criação e de poesia o tempo todo. Descobri que transbordo e aviso para as outras que o casamento precisa ser reinventado desde o termo, que esse negócio de fundir e virar um, só faz mesmo, com o tempo, é anular quem a gente é. Não posso falar pela experiência de todas, mas eu, cá com meus percalços, arrisquei-me em exercitar ser várias, experimentar a dimensão da minha existência e não justificar o que opto quando o assunto é o MEU corpo.
Eu não me censuro porque descobri que tenho direito de ser e de respeitar meus desejos, meus sonhos. Eu atropelei por muito tempo os meus devires e por pouco não os matei: fiz um curso de Direito por 9 anos querendo o tempo todo estudar teatro...e quando saí, exigiram que eu carregasse só a culpa já que havia renunciado o diploma (“Tadinha, ela não deu certo”). Abaixei muito a minha cabeça para um bando de homem dentro e fora de casa. Acorcundei. Cedi o meu corpo como coisa aí pro mundo porque não era senhora de nada, nem senhora de mim. Obedeci demais. Obedeci porque tive medo. Obedeci porque “se não obedecer, apanha”. Mas a surra maior que a gente leva é por obedecer demais. Eu fugi de casa, eu fugi do curso que não queria fazer, eu fugi do casamento. Escapei, mas não ilesa. Nunca estamos ilesas. E faço arte hoje pelas brechas que encontro para fugir das prisões desse cotidiano-mulher que estica seu tapete de sangue vermelho-ancestral e eu quero uma história diferente das que conheci.
Eu teria virado nada se não descobrisse que eu sempre fui uma feminista (e isso gritou depois da morte de minha mãe em 1996, quando a família achou que eu precisava de vigília reforçada por ser a única mulher da casa: casar virgem, ter horário para chegar e sair, fechar as pernas.) e que existem mulheres com histórias parecidas com a minha...e que nem todas estão vivas (ou autorizadas) para um papo reto sobre isso. Sim, nós deixamos de fazer muita coisa por sermos mulheres.
Casar e ter filhxs foi para muitas a única possibilidade de destino.

Deixe-me escrever um poema por dia e aos poucos vou sendo o que eu achar melhor prá mim.
Faço isso por minha filha, Eva.

A maneira mais sincera do meu fazer artístico se dá porque eu me reconheço como uma mulher feminista. Porque nada que eu faça no âmbito das artes anulará a mulher que está inscrita em mim. E eu não faço arte pela metade: Meu corpo está para o meu discurso. Minha pele está para a minha geografia fêmea. Minha voz está para as vozes que calei e quando eu cantar estarei rompendo essa mordaça.
A gente só percebe o quanto obedece quando tem a chance de respirar. Eu respiro neste aqui e agora, na intocável impermanência deste instante (apesar do meu vício irrevogável pelos cigarros de palha: herança daqui das Minas Gerais).
Este escape para sentir o sabor da própria pele e a possibilidade de amar nosso corpo no mundo como potência impossível e precária, insuportável e poética, nos dilata: somos de novo paridas. Lançadas no mundo e encontramos umas nas outras molhos densos de chaves que podem romper portas enguiçadas, insistentes vigílias, ferrolhos e cárceres.

Por via das dúvidas, sabemos chutar.



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[Thaiz Cantasini é licenciada em Artes Cênicas e mestranda em Poéticas e políticas da cena contemporânea pelo PPGAC UFOP. Compositora, mãe, poeta, performer e ativista feminista nos coletivos Ninfeias-Núcleo de Investigações Feministas e Coletivo Minas da Voz]

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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A barbie tem vagina?

dolls de Jake and Dinos Chapman

Da boneca
sem vagina
a menina nada tem

Suas coxas
         não são como as minhas
Seus seios
        não são os ausentes-meus
Sua bunda
       não chegou aqui
Suas pontas
        em mim são pés

Mas ela está aqui
            ela é viva
a vejo na TV
a vejo no PC
a vejo

dolls de Hans Bellmer
Vejo gente que virou ela
ou ela que virou a gente?
                                 não sei
só sei
que a quero!

peço à pai
         mas ele não mora com mãe
peço à mãe
         mas ela chora
   se peço
   ela chora

Disse que também queria
mas que não podia
cresceu assim

Talvez se tivesse
          seria diferente
Branca     alta
     elegante
rica
     loira     peituda
talvez            se tivesse
seria gente
               ou
ainda seria como a gente?

A única coisa desse 'corpo' que se assemelha ao real, ao agora da menina, seria sua vagina. Que deixa de existir, e, assim, a menina deixa de existir.
www.acaboclavaifalar.blogger.com

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

história da sexualidade, foucault 1

versão 00 Fichamento – História da Sexualidade, a vontade de saber, v 1, Michael Foucault “Segundo Foucault, a sociedade capitalista não obrigou o sexo a calar-se ou a esconder-se. Ao contrário, desde meados do século XVI-processo que se intensifica a partir do século XIX com o nascimento das ciências humanas- o sexo foi incitado a se confessar, a se manifestar.(…). Uma primeira abordagem (…) parece indicar que a colocação do sexo em discurso foi submetida a um mecanismo de crescente incitação (…)” compondo inclusive uma ciência da sexualidade. (Roberto Machado)* Cáp 2 – a hipótese repressiva A incitação aos discursos Foucault contrapõe a hipótese de que a partir do século 17, com a burguesia, surgiria um período de repressão sexual e que dela haveria vestígios na sociedade moderna. Para ele, entre o século 17 a 20, há uma explosão do discurso sobre o sexo. Talvez tenha ocorrido uma depuração do vocabulário permitido: “polícia do enunciado”, “onde falar”, situações em que é permitido, relações sociais que permitem falar sobre o sexo e, também, as regiões de silêncio absoluto, onde não pode ocorrer o discurso: relação pais e filhos, patrões e serviçais. Mas, analisando-se minunciosamente, o discurso cresceu, principalmente a partir do século 18. Aumentam-se os discursos no campo do exercício do poder, tanto institucionalmente, quanto pelas instâncias do poder. Sendo que estas apresentam uma curiosidade, obstinação, em apurar e detalhar sobre o sexo. A igreja também incita este discurso, indicando que as confissões dos fieis sejam as mais detalhadas possível, com atos, desejos e pensamentos sexuais. A contrarreforma estimula a prática de confissões, e dá maior gravidade à penitência relacionada as ‘insinuações da carne’: “Tudo deve ser dito”. Para o bom-cristão há a “tarefa de dizer, de se dizer a si mesmo e de dizer a outrem, o mais frequentemente possível, tudo o que possa se relacionar com o jogo dos prazeres, sensações e pensamentos que tenham alguma afinidade com o sexo”, portanto, há a colocação do sexo em discurso. Um efeito do discurso sobre o sexo da igreja do século 17 é a influência e projeção na literatura erótica do mesmo período. As confissões sexuais por ora ditas aos padres tornam-se presentes também na literatura, ambas em primeira pessoa. Mas, enquanto a pastoral procurava gerar “domínio, desinteresse, reconversão espiritual, retorno a deus, efeito físico de dores devido a ‘tentação’ ”, o romancista aspirava repetir, prolongar e estimular as cenas sexuais. Só que ambas trazem a tarefa de se dizer tudo sobre seu sexo, tarefa existente há 3 séculos. Considerando-se estes três campos: Igreja, Instâncias do Poder e Instituições, tem-se que “o sexo é açambarcado e como que encurralado por um discurso que pretende não lhe permitir obscuridade nem sossego”. Não há uma censura sobre o sexo, mas uma “aparelhagem para produzir discursos sobre o sexo”. Sua expansão ocorreu principalmente pelo “interesse público”, em que apresenta seu mecanismo de poder em que tem como essencial para a sua manutenção o discurso sobre o sexo. No início do século 18 associa-se ao sexo um discurso de racionalidade, surgem incitação política, econômica e técnica, a falar sobre o sexo. “Análise, contabilidade, classificação, especificação – há pesquisas quanti e qualitativas”. Já entre os séculos 18 e 19 outros focos suscitam o discurso sobre o sexo, como a medicina, a psiquiatria e a justiça penal. Governos passam a lidar com ‘população’, ao invés de povo ou sujeitos. E nesta população são problematizadas a natalidade, a mortalidade, o uso de contraceptivos, a esterilidade, a idade do casamento, o nascimento legítimo/ilegítimo, a frequência das relações sexuais, todas questões girando em torno do sexo. “A conduta sexual da população é tomada como objeto de análise e alvo de intervenção”, surgem a regulação natalista e antinatalista, a análise de condutas sexuais, e as campanhas. O sexo é julgado legalmente, administrado, gerido e analisado. Torna-se questão de ‘polícia’, não a polícia repressiva, atual, mas a polícia do sexo, que o regula por meio de discursos úteis e públicos, e não pelo rigor da proibição. O sexo tornou-se objeto de disputa ente o Estado e o indivíduo, o que antes era conversado entre crianças e adultos já não ocorre. Outras pessoas é quem falam sobre, há outros pontos de vista e outros efeitos do discurso sobre o sexo. Os colégios do século 18 evidenciam o pensamento e construção focados na regulação do sexo, incluindo precauções, punições e responsabilidades, formulados pelas pessoas que organizavam, autorizavam e arquitetavam o espaço educacional. As evidências constam no espaço da sala, na forma das mesas, no arranjo dos pátios e dormitórios, nos regulamentos de recolhimento e sono. O discurso interno da instituição diz que a sexualidade existe, precoce, ativa e permanente. O sexo colegial torna-se problema público. Médicos aconselham escolas e famílias, pedagogos projetam metodologias, professores falam e escrevem aos alunos. Enquanto na Idade Média havia um discurso unitário em relação ao sexo (da confissão e da carne), nos séculos posteriores via-se que esta unidade discursiva se dispersou, decompondo-se e multiplicando-se. Este processo foi marcado por conflitos entre o discurso confessionário (em primeira pessoa) e os discursos racionalistas. Num período historicamente curto, 300 anos, ocorre um grande acúmulo de discursos sobre o sexo (biológicos, pedagógicos, econômicos, psicológicos, judiciais), e hoje acreditamos piamente que falamos timidamente ou pouco sobre o sexo. Em relação a linguagem do discurso sobre o sexo, Foucault considera que as alterações na expressão/vocabulários em relação ao sexo têm a função secundária de tornar o seu discurso “moralmente aceitável e tecnicamente útil”. A discrição e o mutismo funcionam ao lado de estratégias amplas. Para além do binarismo, que vê ‘o que se diz’ e ‘o que não se diz’, há diferentes maneiras de não dizer, há uma distribuição diferenciada de quem pode e quem não pode falar sobre, há permissões para alguns tipos de discursos. Enfim, será que dizer que não se fala sobre sexo não é uma incitação a se falar mais dele? “O que é próprio das sociedades modernas não é o terem condenado, o sexo, a permanecer na obscuridade, mas sim o terem-se devotado a falar dele, sempre, valorizando-o como ‘o segredo’. ” *As partes entre ("") foram diretamente extraídas do livro. retirado de https://acaboclavaifalar.wordpress.com/

sexta-feira, 24 de julho de 2015

as menor.

no
complexo
das novinhas.


nóis
nas tantas vigas.

ouvi
dizê
que senhor
compositor
daquele complexo
das musicas
que

diz
novinha.

tu
repara
mermão
que
o
som

vibrou
infectou
e
agora
complexo
de julieta
virou
lema
para disputa
de
quem
é melhor.

quer dizer, menor.

quem
é
a novinha
do mc
romantico

virou
tema
de
competição
alheia.

ora,
ora,
já que vivemos
sob a lenda
dos capitais.

tarja fraca

nós leitoras,

feminista radicais. 
feminazi de outras noções. 

a loucura vemos? 
ou são só poetas 
que. 


poemas que. 
poetisa, melhor! 

não, 
pare dessa caretice de refutar gênero. 
sapatões convi. convividas.

então poeta! 
não, seja radical. 

feminazi poesia! 

queria falar, 
volto sem cessar, 
a rosnar, 
a... 

na real 
gostaria de mandar, 
no som do morro. 

feminazi sem tostão. 

mas, a loucura que vejo. 
quando reparo em poemas, 
reparo em poetas
ou daqueles 
que utilizam 
pseudo 
feminismo 
discurso 
alheio 
para ganhar 
proveito. 

homenzinho 
fulaninho de fachada, 
uso do discurso libertário 
para fazer do objeto 
uso inapropriado 
de discurso libertário.

 

sexta-feira, 13 de março de 2015

AÇÃO POSTO DE SAÚDE - SANTA CRUZ

relato do movimento, meu ato de silêncio. a denúncia de vários tormentos.
foi terça feira. preciso expor, vomitar essa ação. meu silêncio implora! abra a boca e escreve sobre tudo. - você ainda está em silêncio? sim... e sinto ainda mais tudo. reviver o que passou, as imagens, tudo...

dia dez de março. começo escrever ás 15h09.

fiquei uma hora de frente a ele.
primeiro chego no bairro, me troco, amarro. os barbantes. amarraram me com seus arames. desci. caixinha de música na mão, a minha proteção. desci, comecei minha ação. dançar, dancei. "não há revolução sem dança." dancei, brinquei. e ele sentado no bar.
antes disso, colando frases contra opressão, o mesmo sujeito passou em nossa frente... - eu preciso olhar a pressão.

- você me olhou e eu te olhei. foi isso.

ainda sem falar. queria tanto gritar! mas preferi cantar. que loucura! que força foi essa?! de pagu, de guerreira, de índia. as forças da minha mãe, da minha avó. para mim, foram mais que uma hora de silêncio. foi um tormento.

- não chora, eu não te fiz nada. não chora.

uma hora que meu corpo cresceu, torturas. eu rezei. pedi a d(D)eus que aquele sujeito se afastasse de mim! o espaço do movimento. meu corpo coberto por amarras.

- ela me petrificou. ela me hipnotizou. eu não fiz nada.

quem diria que a caixinha na minha mão, fosse a minha proteção. quem diria... que aquela música que eu odiava, que fica repetindo e repetindo fosse naquele momento a minha única proteção. fosse a minha arma, a minha espada! ele vinha, se encostava. eu o machucava. agradecia a

- dani, sabe me informar se aqui na santa casa tem tratamento alcoologico? - na hora que eu escrevo o meu relato, vem o universo e retoma assuntos.

eu o machucava. agradecia a d(D)eus por minha caixinha não ter formato de coração. minha caixinha pontiaguda. meu trabalho, um lugar de denúncias. o cheiro da cachaça ainda está na minha memória. eu dizia na minha mente: - se afaste de mim! repreendo. eu ordeno que saia. mas, ele saia e vinha. ele brincava. me olhava e repetia o jogo. saia e vinha. eu precisei cuspir.

- É BRIGA!  ouvi alguém gritar.

com a energia ainda viva, meu corpo, minha cabeça. eu precisei de um cigarro. minha força, herança da minha família. eu não fui pega no laço. eu não deixei que ele me oprimisse.

memórias. eu começando a ação.
dançando com as amarras. das mulheres. comecei e vi que ele me olhava. saiu do bar e foi ver mais de perto a menina -eu- dançar.

- o que esse cara está querendo? pensei comigo... ele me olhou e eu, olhei também... mas, ele não parava de me olhar. chegou mais perto de mim. - santodeus, será que ele quer tocar a caixinha? então eu ofereci a caixinha. ele nada, só me olhava e se aproximava.

chegava mais perto, eu sem espaço. eu não conseguia mais dançar. então parei e o encarei. seu corpo se aproximava cada vez mais perto de mim. cara fechada, sobrancelha cerrada. - porque esse cara está aqui?
o sujeito não me dava espaço. começou a usar o dobro do seu tamanho para me encarar. começou a imitar meu olhar. eu não deixei. isso não vai me amedrontar. continuei. cara fechada. agora era só a caixinha que tocava. durante um tempo era só que eu ouvia. parada. exposição da massa. seu corpo. saia e vinha. me oprimia. eu parada. NÃO! ao meu lado eu não te quero. ENCARO O DE FRENTE. esse jogo continuou. até que ele chegou mais perto do meu rosto. voltou - me olhou de cima em baixo E AINDA POR CIMA MORDIA O LÁBIO! olhava meu peito. me olhava sem o menor respeito. olhos ameaçadores. chegava cada vez mais perto. eu o machucava com a minha caixinha.  chegou mais perto, quase encostou seu rosto na minha boca. ameacei, dei um tapa e falei: - você não me encosta.

- tamo junto. ele disse.
tamo junto. você me conhece. tamo junto.

eu não... eu não acredito nas coisas que ouvi. e hoje, depois de três dias que realizei a ação. ainda escuto essa voz. ainda fica repetindo algumas frases da minha cabeça. o cheiro de cachaça. a caixinha parou.

- TOCA! TOCA! TOCA!
ele não parava de falar.
- FALA! FALA! FALA! FALA!
ele não parava de falar.

- Eu Márcio, você? Você me conhece.
- EU MÁRCIO! VOCÊ?

eu não parava de apertar lo com a minha caixinha. ele ainda sorria. ia embora e voltava. parecia que precisava ganhar mais força com o impulso. me olhava.

- FALA! FALA! FALA!

naquele momento... o meu silêncio, foi o meu porto seguro.


espaço movimento. 
naquele mesmo dia, a noite... eu ainda escrevia.





                                                                              hoje.
                                                                              silêncio.
                                                               hoje
 – você não me encosta.

ela é muda.

gestos, e mais gestos. acho que aprendi direito.

sai!
-toca, toca, toca, toca.
- você está tensa.
- ELA ME PARALISOU.

eu estava amarrada. pés, mãos, tronco e uma linha que cruzava tudo. eu não falava. eu no início, só dançava. ela eu, não rela neu.

- você está bem? achei que fosse uma cena.  nem sei onde esse cara mora.
- ele é garçom.
- ele é doente.
- ele é alcoólatra.

- eu preciso de ajuda. – ele dizia. – você precisa de ajuda.

eu?

a be
bida
a bebida não é nenhuma forma de justificativa para qualquer agressão, ação contra a qualquer mulher. não justifica, não insista.
ele insistia.
vinha de cá para lá.
brincava comigo.
- não chora.
- eu não te fiz nada.
- eu não te fiz nada e te perdôo.

CUSPO! CUSPO! CUSPO!

CUSPI NA CARA. SEM MEDO DE LEVAR PORRADA!
CUSPI NO CHÃO. AVISO PRÉVIO MEU IRMÃO.
SEGUNDA VEZ, CUSPI NO OLHO, CUSPI COM ENGODO.
cuspi, cuspi, cuspi. para chamar atenção de alguém. cuspia.
de mãos amarradas fiz o que podia fazer.
cuspir.

- eu não te fiz nada e te perdôo.
- eu márcio, você?
- fala! fala! fala!
- toca! toca! toca!

a caixinha de música, pontiaguda, meu limite minha proteção.
eu machucava, queria que sangrasse.
e ele saia e vinha. saia e vinha
seu olhar me perseguia.
saia e vinha. olhava, oprimia.

- eu preciso de ajuda.
- porque? porque?
- você me conhece.

- ele é garçom.
- ele ta no bar aqui direto, quando eu saio do plantão, ele está lá. já mexeu comigo várias vezes.
- eu achei que fosse uma cena. hoje é a semana da mulher, né?

eu dançava, essa era a minha ação. ele chegou e não parou de desafiar, de encarar, de insinuar, de cutucar, de implorar, de revidar, de chantagear, de exclamar, de atormentar, de se queixar, de vacilar.

- é igual uma luta, né.
- é uma luta né?
- fala! fala! fala! fala!

ele ordenava, cara de quem ordenhava. jeito de sujeito refeito.

- você me conhece.


conheço. está certíssimo. estudo, pesquiso caras desses jeitos. covardes que usam nós, mulheres para se manterem na posição de macho alfa, procriador. conheço e abomino.